segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dizer e Ouvir NÃO...

MARIA DO ROSÁRIO STOTZ (*)

Nem sempre o NÃO significa apenas NÃO.

René Spitz foi um dos primeiros autores psicanalistas a apresentar a discussão sobre o papel do “não” no desenvolvimento de uma criança. Em seu livro “O primeiro ano de vida”, publicado em 1965, o autor assinala que justamente no momento em que a criança, em torno do final do primeiro ano de vida, expressa um importante desenvolvimento de suas atividades motoras, mudando da passividade para a atividade, é a ocasião em que aparece o “não”. A mãe passa a privilegiar a palavra “não” associando-a ao gesto de proibição expresso inicialmente através de uma ação física – meneio negativa da cabeça – não, não! A partir daí inicia-se a construção de um mundo com limites, coisas que podem ser feitas, outras “não”. Mais tarde, inclusive, o “não” vai aparecer além de associado a situações de ação – atos que podem ou não ser realizados, também relativo aos pensamentos, desejos, vontades, sonhos, alguns possíveis, outros – não, não! O “não” advém como a primeira expressão da impossibilidade – “nem tudo que eu quero, eu posso”. A criança, inicialmente, ao ver seus pais lhe impedirem de realizar algo, geralmente imita-os no gesto, embora ainda assim insista em executar o ato proibido. Aquilo que parece uma brincadeira – a criança repete o gesto com o dedo, ou com a cabeça: “não, não” – tornar-se-á posteriormente o símbolo da ação frustradora dos pais. Frustração – palavra insuportável para algumas pessoas. Assim, a criança adquire o primeiro conceito abstrato – “não”. Algumas pessoas assimilam, internalizam o “não” mesmo que ao preço de certo desencanto e insatisfação. Este momento frustrante envolve a palavra, o gesto e também o afeto. Então, pensa a criança, “meus pais podem não me dar algo”. O domínio do “não” é um dos elementos que permitem a organização psíquica, emocional da criança, que a partir daí desenvolve sua capacidade de julgamento e negação. E ainda, depois de um tempo, não mais será necessário o gesto da negativa e apenas a palavra “não” pronunciada pelos pais faz com que a criança saiba qual seu significado. Em algumas ocasiões, a mãe pode não estar no mesmo ambiente físico da criança, mas sua voz o advertirá que “não, não”. Relações parentais saudáveis farão com que a criança possa suportar a negativa de seus pais e valorizá-la tanto quanto suas afirmativas, assim como as ausências e presenças das figuras parentais tornam-se marcantes. Os pais são importantes porque satisfazem e também porque frustram, porque dão e porque negam. É quase como se fosse um treino para o que a criança vai vivenciar mais tarde em suas relações com o mundo em geral. O sujeito precisará suportar os “não” e serão muitos. Aos poucos a criança pode perceber que não é o centro do universo, que as pessoas ao seu redor também têm outros interesses e são portadores de desejos e vontades em que ela (a criança) pode estar envolvida ou não. Como existe afeto suficiente e saudável, a criança acatará a frustração e o “não”, porque já é sabedora que em outros momentos virão o “sim” e a satisfação. É o afeto introjetado (auto-estima) que permite passarmos por momentos que se não são exatamente como desejáramos, são ainda assim momentos necessários e importantes em nossas vidas. Falávamos em reações parentais saudáveis... Famílias saudáveis na casa do vizinho? Cabe destacar que nem todas as crianças passaram por estes momentos tão marcantes de maneira tranqüila e, muitas vezes, pode-se perceber crianças, adolescentes com dificuldades de ouvir o “não” e mesmo adultos. Um momento de frustração na vida adulta pode remetê-los às experiências passadas de sofrimento e desencadear a sensação de desaprovação, frustração e falta de amor da infância. Inclusive, às vezes, as pessoas ditas adultas podem comportar-se como crianças birrentas, esperneando, falando alto, agredindo o outro por não suportarem o limite, a frustração de não serem atendidos em todos os seus desejos. É sempre mais fácil lidar bem com situações em que as respostas são de aprovação e de reconhecimento. Como é difícil ter suporte psíquico para situações em que somos frustrados em nossos desejos de adultos, desejos esses que nos lembram dos infantis. E isto, com certeza, não é só na casa do vizinho. E assim o “não” segue sua carreira na vida dos sujeitos. Mas ainda há uma faceta da negativa que gostaria de lembrar. Falamos da dificuldade em ouvir o “não”, mas também podemos perceber que existem problemas relativos ao se dizer o “não” – ainda aqui no sentido de colocar limites. Ora, se algumas pessoas tiveram dificuldades ao ouvir o “não” porque este foi interpretado como falta de amor ou abandono, este sujeito quando adulto, pode, ao utilizar mecanismos de defesa, até suportar ouvir o “não”, mas pode ter relutância em dizer “não”. Por que será que isto acontece? As possibilidades de saber o porquê são muitas, mas tentemos assinalar apenas uma delas. Esta criança interna – hoje um adulto, que foi frustrado – identifica-se ao outro a quem iria frustrar dizendo “não”. Inconscientemente “eu não gostaria de ouvir “não” porque representa falta de amor, então não direi “não” ao outro”. Só que ‘o tiro sai pela culatra’, ao não colocar o limite no outro, o sujeito acaba voltando-se contra ele mesmo, questionando-se porque não conseguiu dizer “não” e marcar seu limite. Por um lado, aquieta-se porque pensa que assim o fez porque é uma pessoa bondosa. Pode ser. Mas, por outro lado, também pode ser que ainda tenha uma criança mimada interna querendo se manifestar. Como é difícil viver, não? E este “não” que incluímos em quase todos os momentos da vida, durante nossas falas? Teria um significado especial? “Não sei não” – poderia lhes dizer. Apelemos ao pai da psicanálise... Freud, em 1925, já se ocupara de estudar o papel do “não” na vida dos sujeitos. O autor trata desta temática em um texto encantador chamado “A Negativa”. Freud está escrevendo sobre o uso do “não” em um discurso, por exemplo – eu quero isto e/ou eu não quero isto – uma frase afirmativa e outra com o uso da negativa. Diz Freud: “Negar algo em um julgamento é, no fundo, dizer: ‘Isso é algo que eu preferiria reprimir’.” Portanto, utilizar a negativa é também uma forma de tomar conhecimento de algo que está recalcado (inconsciente). O “não”, neste caso, é o recurso psíquico que permite que eu possa dizer algo que sem o “não” seria insuportável, ou pelo menos, desconfortável de ser dito. Portanto, cuidado com frases como ‘eu não te amo mais’; ‘eu não tenho medo de nada’; ‘é claro que eu não quero isto’; ‘não sei não’. Frases assim podem significar mais do que aquilo que dizem. Então prestemos atenção. Ouvir não pode ser importante. Dizer não pode ser fundamental. Usar o não pode ser necessário. Mas também, às vezes, parafraseando Lacan, um não é só um não.


(*) MARIA DO ROSÁRIO STOTZ - PROFESSORA, PSICÓLOGA E ARTICULISTA DO JORNAL ON-LINE UNISULHOJE

3 comentários:

Teka disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Teka disse...

Excelente postagem, principalmente pela abordagem de como o Não, apesar de duro de dizer ou de engolir, faz parte de nossas vidas, e precisa ser dito, assim como ouvido, além de praticado.

O Não sei Não, pode querer dizer algo mais que, a inconsciência mantém em segredo, mas que certamente tivemos que aprender.

Beijo...boa semana!

queludemedeiros disse...

Olá! Meu filho tem 1 ano e meio e desde q começou a andar (por volta dos 12 meses) ele nao aceita ouvir não. Toda vez q ue ouve bate a cabeça contra a parede ou qualquer móvel q esteja perto. OU até mesmo se estiver com algo nas mãos, bate contra a cabeça ou, se nada tiver nas mãos, bate com força as próprias maozinhas no rosto. GOstaria de saber se isso é normal ou se seria aconselhável buscar uma ajuda psicológica.
Bjos
Quezia