domingo, 18 de abril de 2010

Saudade é o amor que fica...

Autor: Dr. Rogério Brandão (*) 

Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.
Dizem que a dor é quem ensina a gemer.
Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.
Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.

Um dia, um anjo passou por mim...

Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada, porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.
Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe.
E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

Meu anjo respondeu:

- Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores.
Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio.
Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
- É isso mesmo, e então?
- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:

- E o que saudade significa para você, minha querida?

- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
 
(*) Médico oncologista clínico - Recife, Boa Vista

3 comentários:

Carmen disse...

Carmen disse

Que texto sensível! "Saudade é o amor que fica" Não vi definição mais bela para saudade do que essa marcada pelo amor.

laurinhando por ai disse...

Boa Noite

Chamou-me a atenção a chamada de seu blog, e resolvi entrar e conhecer!!
Estou aqui, emocionada após a leitura de teu post...
Verdade, saudade é o amor que fica e não a dor que vem com a despedida de alguém querido.
A dor, com o tempo, vai embora devagarinho, o amor não, fica cada dia mais forte,adormecido dentro do coração.
Voltarei com mais calma e mais vezes para degustar de sua leitura.
Abraços
Laurinha

Ilza Nascimento disse...

Tive essa mesma sensação de tristeza quando conheci o trabalho de senhoras que fazem colchas bordadas pra doar a crianças pacientes de câncer. Como aquilo doeu... E doeu mais ao ver o agradecimento de uma mãe que já havia perdido seu bebê e que guardava a colcha com o cheirinho. Já dizia o poeta: "Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu..."